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Nota complementar sobre as consequências da noção de individuação

Nota complementar sobre as consequências da noção de individuação

SIMONDON, Gilbert. 2020 [1958]. Nota complementar sobre as consequências da noção de individuação. In: A individuação à luz das noções de forma e de informação. (Trads.: Luís E.P. Aragon; Guilherme Ivo) São Paulo: Editora 34, p.507-45.

[Páginas da tradução brasileira (Simondon 2020) entre colchetes]

PRIMEIRO CAPÍTULO: valores e busca de objetividade

[507]

1 – valores relativos e valores absolutos

[507]: Existem dois valores relativos, os técnicos e os orgânicos (vivos), e um valor absoluto, a cultura humana, que é a possibilidade de compatibilidade entre eles. Cultura como centro de cálculo latouriano: os “símbolos bem-fundados” de Durkheim.

    VALOR (complementaridade ilimitada entre indivíduos; indivíduos com préindividual)

    O valor representa o símbolo da integração mais perfeita possível, isto é, da complementaridade ilimitada entre o ser individual e os outros seres individuais. (Simondon 2020:507)

    OS 3 TIPOS DE VALORES (2 relativos e 1 absoluto)

    três tipos de valores são possíveis: dois valores relativos e um valor absoluto. (Simondon 2020:508)

    VALORES RELATIVOS (técnico ou orgânico)

    Podemos nomear valores relativos aqueles que exprimem a chegada de uma condição complementar; esse valor está ligado à coisa mesma que constitui essa condição, mas ele, no entanto, não reside nessa coisa; […] é o valor do remédio que cura, ou do alimento que permite viver. Aqui pode ser que haja o valor como condição orgânica ou o valor como condição técnica, conforme a condição já realizada seja técnica ou orgânica. (Simondon 2020:508)

    VALOR ABSOLUTO (cultura)

    O terceiro tipo de valor é o valor que permite a relação: início ou encetamento da reação que permite essa atividade e que se entretém consigo mesma uma vez começada. Entre esses valores, pode-se colocar a cultura, que é como um conjunto de inícios de ação, providos de um rico esquematismo, e que esperam ser atualizados numa ação (Simondon 2020:508)

    CULTURA como CENTRO DE CÁLCULO LATOURIANO

    Isso supõe que a cultura, de alguma maneira, seja capaz de manipular os símbolos que representam tal gesto técnico ou tal pulsão biológica; […] a cultura só pode ser eficaz se ela, no ponto de partida, possuir essa capacidade de agir sobre símbolos e não sobre as realidades brutas; a condição de validez dessa ação sobre os símbolos reside na autenticidade dos símbolos, ou seja, no fato deles serem verdadeiramente o prolongamento das realidades que representam, e não um simples signo arbitrário (Simondon 2020:509)

    ARTE É CULTURA, mas CULTURA NÃO É ARTE

    As Belas Artes, enquanto meios […] de expressão, oferecem à cultura sua força de simbolização adequada, mas não constituem a cultura, a qual, se permanece esteticismo, não possui eficácia alguma. (Simondon 2020:509)

    CULTURA como NEXO entre VIDA e TÉCNICA

    É preciso [ainda] que a cultura, [em lugar] de ser pura consumidora de meios […] de expressão constituídos em gêneros fechados, [sirva] efetivamente para resolver os problemas humanos, isto é, [coloque] em nexo as condições orgânicas e as condições técnicas. (Simondon 2020:509)

    CULTURA como RESOLUÇÃO de um PROBLEMA EXISTENCIAL (não automático) HUMANO

    a cultura reflexiva é sensível ao aspecto problemático da existência; ela busca o que é humano, ou seja, aquilo que, ao invés de cumprir-se por si mesmo e automaticamente, necessita de um questionamento do homem por si mesmo no retorno de causalidade da reflexão e da consciência de si; é no encontro do obstáculo que a necessidade da cultura se manifesta (Simondon 2020:510)

    CULTURA HUMANA como COMPATIBILIDADE entre VIDA e TÉCNICA

    o problema aparece quando surge, no lugar dessa alternância entre a vida orgânica e a vida técnica, a necessidade de um modo de compatibilidade entre as duas vidas, no seio de uma vida que as integre simultaneamente e que é a existência humana.(Simondon 2020:510)

2 – A zona obscura entre o substancialismo do indivíduo e a integração ao grupo

[510]: A Filosofia compatibiliza indivíduo (busca por salvação religiosa) e grupo (vida cívica); como a cultura compatibiliza vida e técnica.

    FILOSOFIA como COMPATIBILIDADE entre VIDA CÍVICA (coletiva) e SALVAÇÃO RELIGIOSA (individual)

    apenas um pensamento capaz de instituir uma verdadeira relação alagmática entre esses dois aspectos da cultura [civismo e religião] é válido; ele não é, então, dogmático, mas reflexivo; o sentido dos valores desaparece nessa incompatibilidade das duas culturas; só o pensamento filosófico pode descobrir uma compatibilidade dinâmica entre essas duas forças cegas que sacrificam o homem pela cidade ou a vida coletiva pela busca individual da salvação. Sem o pensamento reflexivo, a cultura se degrada em esforços incompatíveis e não construtivos, que consomem a preocupação cívica e a busca de um destino individual num afrontamento estéril. O sentido dos valores é a recusa de uma incompatibilidade no domínio da cultura, a recusa de um absurdo fundamental no homem. (Simondon 2020:512)

3 – Problemática e busca de compatibilidade

[512]: Problemas (normatividades orgânica e técnica) só são definidos quando são solucionados, sendo consciência (valor absoluto) a relação entre problemas e soluções (compatibilidade)

    INDIVÍDUO COMO AÇÃO-REDE

    Esse antagonismo dá lugar a uma compatibilidade possível se o indivíduo, ao invés de ser concebido como uma substância ou um ser precário que aspira à substancialidade, for apreendido como o ponto singular de uma infinidade aberta de relações. Se a relação tem valor de ser, já não há oposição entre o desejo de eternidade e a necessidade da vida coletiva. (Simondon 2020:512)

    VALOR ABSOLUTO COMPATIBILIZA NORMATIVIDADES ORGÂNICA e TÉCNICA

    O valor não se opõe às determinações; ele as compatibiliza. O sentido do valor é inerente à relação pela qual o homem quer resolver o conflito instituindo uma compatibilidade entre os aspectos normativos de sua existência. (Simondon 2020:512-3)

    PROBLEMA = NORMATIVIDADE + INCOMPATIBILIDADE

    Sem uma normatividade elementar, de alguma maneira sofrida pelo indivíduo, e já abrigando uma incompatibilidade, não haveria problema; (Simondon 2020:513)

    RESOLVER O PROBLEMA (solução) = FORMULAR O PROBLEMA (definição)$

    o indivíduo pode viver o problema, mas só pode elucidá-lo resolvendo-o; é o suplemento de ser descoberto e criado sob forma de ação que posteriormente permite à consciência definir os termos nos quais o problema se colocava; a sistemática que permite pensar simultaneamente os termos do problema, quando se trata de um problema moral, só é realmente possível a partir do momento em que a solução é descoberta. (Simondon 2020:513)

    O SENTIDO CRIATIVO-INVENTIVO-AUTOCONSTITUTIVO DO VALOR

    O sentido do valor reside no sentimento que nos impede de buscar uma solução já dada no mundo ou no eu, como esquema intelectual ou atitude vital; […]. O sentido do valor é o que deve evitar que nos encontremos ante problemas de escolha; o problema da escolha aparece quando só resta a forma vazia da ação, quando as forças técnicas e as forças orgânicas estão desqualificadas em nós e nos aparecem como indiferentes. […] [O] sentido do valor é o da autoconstituição do sujeito por sua própria ação (Simondon 2020:513)

    O PROBLEMA MORAL (valor) como RELAÇÃO CONSCIÊNCIA-AÇÃO

    O problema moral que o sujeito pode colocar para si está, portanto, no nível dessa permanente mediação construtiva, graças à qual o sujeito progressivamente toma consciência do fato de que resolveu problemas, quando esses problemas foram resolvidos na ação. (Simondon 2020:513-4)

4 – Consciência moral e individuação ética

[514]: Consciência moral como ação do sujeito sobre si mesmo, tomando consciência dos (definindo os) seus problemas na medida em que os soluciona na ação (individuação ética?)

    CONSCIÊNCIA como AÇÃO DO SUJEITO SOBRE SI MESMO, DEFININDO PROBLEMAS À MEDIDA EM QUE OS SOLUCIONA

    a consciência é a reatividade do sujeito relativamente a si mesmo, que lhe permite existir como indivíduo, sendo para si mesmo a norma de sua ação; o sujeito age se controlando, isto é, pondo-se na mais perfeita comunicação possível consigo mesmo; a consciência é esse retorno de causalidade do sujeito sobre si mesmo, quando uma ação optativa [volitiva, desejante] está a ponto de resolver um problema. (Simondon 2020:514)

    CONSCIÊNCIA PSICOLÓGICA (reguladora do organismo) =/= CONSCIÊNCIA MORAL-NORMATIVA (autorreguladora; ação o sujeito sobre si mesmo)

    a consciência moral reporta os atos ou os inícios de atos àquilo que o sujeito tende a ser no término desse ato; ela só pode fazer isso de modo extremamente precário, de alguma maneira “extrapolando” para dar conta da atual transformação do sujeito; ela é tanto mais fina quanto melhor consegue julgar em função do que o sujeito será; é por essa razão que há uma relativa indeterminação no domínio da consciência moral, pois a consciência moral instaura de início um primeiro tipo de reatividade, como a consciência simplesmente psicológica, e, em seguida, um segundo tipo de reatividade, que vem do fato das modalidades desse retorno de causalidade dependerem do regime de ação que elas controlam: nessa recorrência da informação, o sujeito não é um ser dotado somente de uma teleologia interna simples, mas de uma teleologia ela própria submetida a uma autorregulação: a consciência psicológica já é reguladora; a consciência moral é uma consciência reguladora submetida a uma autorregulação interna; essa consciência duplamente reguladora pode ser nomeada consciência normativa. Ela é livre porque ela mesma elabora seu regime próprio de regulação. (Simondon 2020:514-5)

    LIBERDADE, AUTOCRIAÇÃO e COMPATIBILIDADE de CONDIÇÕES ASSIMÉTRICAS

    essa liberdade só pode ser encontrada na autocriação de um regime de compatibilidade entre condições assimétricas, como aquelas que encontramos na base da ação (Simondon 2020:515)

    CONSCIÊNCIA MORAL-VALORIZADORA NÃO PODE SER AUTOMATIZADA

    é preciso que o organismo e a técnica já estejam presentes, prontos para serem relacionados, para que a consciência moral possa existir. A consciência valorizadora define, portanto, um nível de atividade teleológica que não pode ser reconduzida a nenhum automatismo. A solução para o problema moral não pode ser buscada por computador. (Simondon 2020:515)

5 – Ética e processos de individuação

[515]: A sociedade como comunidade aberta (em expansão), na qual valores biológicos coletivos relativos são sobrepujados por valores individuais-sociais subjetivos absolutos ligados à técnica.

    CONSCIÊNCIA MORAL (o sentido dos valores) x CLASSIFICAÇÃO MORAL (estereotipia, pensamento por espécies e gênero, simples teleologia, automatismo)

    Certamente, as condutas automáticas e estereotipadas surgem assim que a consciência moral demissiona; então, o pensamento por espécies e gênero substitui o sentido dos valores; a classificação moral caracteriza a simples teleologia social ou orgânica, e é de ordem automática. (Simondon 2020:515)

    SENTIMENTOS PURAMENTE SOCIAIS-REGULADORES (estereótipos, menos estáveis; imantação abaixo do ponto de Curie; fenômeno de grupo, circunstâncias técnicas ou orgânicas; necessidades vitais comunitárias) x VALORES INDIVIDUAIS-MORAIS (mais estáveis; imantação acima do ponto de Curie; fenômeno individual; amizade)

    os sentimentos puramente reguladores são muito menos estáveis que os valores elaborados pelos indivíduos; basta uma mudança nas circunstâncias sociais para que os estereótipos se revertam e deem lugar a uma convergência diferente; poder-se-ia comparar os sentimentos sociais àquela imantação que é fácil de produzir num metal magnético abaixo do ponto de Curie; basta um campo pouco intenso para mudar a imantação remanescente; ao contrário, se as moléculas foram imantadas acima do ponto de Curie e puderam orientar-se no campo, sendo depois resfriadas conservando essa imantação, é preciso um campo desmagnetizante bem mais intenso para desimantar o metal; é que não se trata apenas de um fenômeno de grupo, mas de uma imantação e orientação de cada molécula tomada individualmente. Homens unidos pelo sentido de um mesmo valor não podem ser desunidos por uma simples circunstância orgânica ou técnica; a amizade contém um sentido dos valores que funda uma sociedade sobre outra coisa que não as necessidades vitais de uma comunidade. (Simondon 2020:515-6)

    COMUNIDADE (biológica) x SOCIEDADE (ética)

    A comunidade é biológica, enquanto a sociedade é ética. (Simondon 2020:516)

    COMUNIDADE (fechada; sociedade cujo sentido se perde porque sua ação é impossível; estereótipos; sociedade que deveio estática; inclusões e exclusões, gênertos e espécies; valores relativos positivos ou negativos; relação indivíduo-grupo) x SOCIEDADE (aberta; comunidade em expansão; pensamento analógico, graus de valor absoluto, sempre positivos; reação indivíduo-indivíduo numa sociedade)

    toda sociedade é aberta na medida em que o único critério válido é constituído pela ação, sem que haja um […] [símbolo] de natureza biológica ou técnica para recrutar ou excluir os membros dessa sociedade. Uma sociedade cujo sentido se perde porque sua ação é impossível devém comunidade e, consequentemente, se fecha, elabora estereótipos; uma sociedade é uma comunidade em expansão, enquanto uma comunidade é uma sociedade que deveio estática; as comunidades utilizam um pensamento que procede por inclusões e exclusões, gêneros e espécies; uma sociedade utiliza um pensamento analógico, no verdadeiro sentido do termo, e não conhece apenas dois valores, mas uma infinidade contínua de graus de valor, desde o nada até o perfeito, sem que haja oposição das categorias do bem e do mal e dos seres bons e ruins; para uma sociedade, existem somente os valores morais positivos; o mal é um puro nada, uma ausência, e não a marca de uma atividade voluntária. O raciocínio de Sócrates, ούδείς έχών άμαρτάνει, segundo o qual ninguém faz voluntariamente o mal, é notavelmente revelador do que é a verdadeira consciência moral do indivíduo e de uma sociedade de indivíduos; com efeito, como a consciência moral é autonormativa e autoconstitutiva, ela é essencialmente posta na alternativa ou de não existir, ou então de não fazer voluntariamente o mal; a consciência moral supõe que a relação a outrem é uma relação de indivíduo a indivíduo numa sociedade.(Simondon 2020:516-7)

    COMUNIDADE (bipolar, positivo ou negativo) x SOCIEDADE (unipolar, só positivo)

    A bipolaridade dos valores manifesta uma comunidade; a unipolaridade dos valores manifesta uma sociedade. (Simondon 2020:517)

    ATIVIDADE TÉCNICA (unipolar) =/= ATIVIDADE BIOLÓGICA (bipolar)

    a atividade técnica não introduz uma bipolaridade dos valores a mesmo título que a atividade biológica; com efeito, para o ser que constrói, não há o bom e o mau, mas o indiferente e o construtivo, o neutro e o positivo; a positividade do valor se destaca sobre um fundo de neutralidade, e de neutralidade toda provisória, toda relativa, pois o que ainda não é útil pode devir útil segundo o gesto do indivíduo construtor que saberá utilizá-lo; ao contrário, o que recebeu um papel funcional no trabalho não pode perdê-lo e, assim, encontra-se por isso mesmo para sempre investido de um caráter de valor; o valor é irreversível e inteiramente positivo; não há simetria entre o valor e a ausência de valor. (Simondon 2020:517-8)

SEGUNDO CAPÍTULO: Individuação e invenção

[518]

1 – O técnico como indivíduo puro

[518]: o técnico com indivíduo puro, pois opera um objeto (ou num domínio) ainda desconhecido ou não representado socialmente.

    ATIVIDADE TÉCNICA como INTRODUÇÃO à RAZÃO SOCIAL e à LIBERDADE

    Consequentemente, a atividade técnica pode ser considerada como uma introdutora à verdadeira razão social e como uma iniciadora no sentido da liberdade do indivíduo (Simondon 2020:518)

    A TÉCNICA ESCAPA DA IDENTIFICAÇÃO SOCIAL

    embora ela [a sociedade] possa identificá-lo [um indivíduo] totalmente com sua função orgânica e seu estado orgânico (homem jovem, idoso, guerreiro), ela não pode fazê-lo aderir totalmente à sua função técnica (Simondon 2020:518)

    O MÉDICO como TÉCNICO (indivíduo puro, autônomo frente a seu grupo)

    nos poemas homéricos, o médico é, sozinho, considerado como equivalente a vários guerreiros […], e particularmente reverenciado. É que o médico é o técnico da cura; ele tem um poder mágico; sua força não é puramente social, como a do chefe ou a do guerreiro; é sua função social que resulta de seu poder individual, e não seu poder individual que resulta de sua atividade social; o médico é mais que o homem definido por sua integração ao grupo; ele é por si mesmo; ele tem um dom que é só dele, que ele não toma da sociedade e que define a consistência de sua individualidade diretamente apreendida. Ele não é apenas um membro de uma sociedade, mas um indivíduo puro; numa comunidade, ele é como que de uma outra espécie; ele é um ponto singular e não está submetido às mesmas obrigações e às mesmas interdições que os outros homens. (Simondon 2020:518)

    O FEITICEIRO-SACERDOTE como TÉCNICO

    O feiticeiro e o sacerdote são igualmente detentores de uma técnica de ordem superior, graças à qual as forças naturais são captadas ou as potências divinas são tornadas favoráveis; (Simondon 2020:518)

    ADIVINHO (Tirésias) como TÉCNICO

    um único homem pode fazer face ao chefe da armada, apenas um pode impor-lhe respeito: o adivinho Tirésias é mais poderoso que qualquer outro ser definido por sua função, pois ele é o técnico da previsão do porvir. (Simondon 2020:518-9)

    TÉCNICO como PORTADOR DE SABER ESOTÉRICO EXTRA-SOCIAL

    O técnico, numa comunidade, aporta um elemento novo e insubstituível, o do diálogo direto com o objeto enquanto oculto ou inacessível ao homem da comunidade; pelo exterior do corpo, o médico conhece as misteriosas funções que se cumprem no interior dos órgãos. O adivinho lê nas entranhas das vítimas a sorte oculta da comunidade; o sacerdote está em comunicação com a vontade dos Deuses e pode modificar suas decisões, ou ao menos conhecer suas sanções e revelá-las. (Simondon 2020:519)

    ENGENHEIRO como TÉCNICO

    O engenheiro, nas cidades gregas da Jônia no século VI antes de Jesus Cristo, devém o técnico por excelência; ele aporta o poder de expansão a essas cidades e é o homem […] [engenhoso nas técnicas]. (Simondon 2020:519)

    FILÓSOFOS como TÉCNICOS

    Tales, Anaximandro, Anaxímenes, são técnicos antes de tudo. (Simondon 2020:519)

    PENSAMENTO INDIVIDUAL LIVRE – REFLEXÃO DESINTERESSADA – DIÁLOGO DIRETO COM O MUNDO

    Não se deve esquecer que a primeira aparição de um pensamento individual livre e de uma reflexão desinteressada é, de fato, a dos técnicos, isto é, de homens que souberam se desprender da comunidade por um diálogo direto com o mundo. (Simondon 2020:519)

    MILAGREGO = INDIVÍDUO PURO (reunião das vidas orgânica-comunitária e técnica-individual; a predição de Tales)

    Tannery mostrou em sua obra intitulada Pour une histoire de la science hellène o papel preponderante do pensamento técnico naquilo que se nomeou “milagre grego”; o milagre é o advento, no interior da comunidade, do indivíduo puro, que reúne em si as duas condições do pensamento reflexivo: a vida orgânica e a vida técnica. Esses primeiros técnicos mostraram sua força predizendo, como fez Tales, um eclipse do Sol. (Simondon 2020:519)

    TÉCNICA (operação do indivíduo sobre um objeto-domínio oculto-inacessível-não social = pesquisa científica) =/= TRABALHO (especialistas num campo)

    Não se pode confundir técnica e trabalho; com efeito, o trabalho, perdendo seu caráter de operação sobre um objeto oculto, não é mais uma técnica, propriamente falando; o verdadeiro técnico é aquele que é um mediador entre a comunidade e o objeto oculto ou inacessível. Hoje nomeamos técnicos os homens que na realidade são trabalhadores especializados, mas que não põem a comunidade em relação com um domínio oculto; uma técnica absolutamente elucidada e divulgada não é mais uma técnica, mas sim um tipo de trabalho; os “especialistas” não são verdadeiros técnicos, mas sim trabalhadores; hoje a verdadeira atividade técnica está no domínio da pesquisa científica que, por ser pesquisa, está orientada para objetos ou propriedades de objetos ainda desconhecidos. Os indivíduos livres são aqueles que efetuam a pesquisa e instituem, com isso, uma relação com o objeto não social. (Simondon 2020:519-20)

2 – A operação técnica como condição de individuação. Invenção e autonomia; comunidade e relação transindividual técnica

[520]: O transindividual como “sociedade dos indivíduos”, civilização e progresso, via técnica (surreal).

    O SER TÉCNICO (nexo humano-mundo) SE MANTÉM PRESENTE, enquanto O TRABALHO SE DISSIPA

    O nexo do Homem ao mundo pode, com efeito, efetuar-se seja através da comunidade, pelo trabalho, seja do indivíduo ao objeto, num diálogo direto que é o esforço técnico: o objeto técnico assim elaborado define uma certa cristalização do gesto humano criador e o perpetua no ser; o esforço técnico não está submetido ao mesmo regime temporal que o trabalho; o trabalho se esgota em seu próprio cumprimento, e o ser que trabalha aliena-se em sua obra, ele toma mais e mais distância relativamente a si mesmo; ao contrário, o ser técnico realiza a convocação de uma disponibilidade que permanece sempre presente; o esforço alastrado no tempo, ao invés de se dissipar, constrói discursivamente um ser coerente que exprime a ação ou a sequência de ações que o constituiu, e as conserva sempre presentes: o ser técnico medeia o esforço humano e lhe confere uma autonomia que a comunidade não confere ao trabalho. (Simondon 2020:520)

    SER TÉCNICO (participável, fecundidade inesgotável, ser de informação) num ELÃ DE COMUNICAÇÃO UNIVERSAL

    O ser técnico é participável; como sua natureza não reside apenas em sua atualidade, mas também na informação que ele fixa e que o constitui, ele pode ser reproduzido sem perder essa informação; então, ele é de uma fecundidade inesgotável enquanto ser de informação; está aberto a todo gesto humano para utilizá-lo ou recriá-lo, e se insere num elã de comunicação universal. (Simondon 2020:520)

    TOMADA DE CONSCIÊNCIA NA ATIVIDADE CONSTRUTIVA e NA NORMA

    a atividade construtiva dá ao homem a imagem real de seu ato, pois o que atualmente é objeto da construção devém meio […] de uma construção ulterior, graças a uma mediação permanente; é esse regime contínuo e aberto do tempo do esforço técnico que permite ao indivíduo ter a consciência reativa de sua própria ação, e dele mesmo ser sua própria norma. (Simondon 2020:520)

    NORMATIVIDADE TÉCNICA (inerente, intrínseca, coerente, absoluta) como MOTOR EVOLUTIVO (transformações, reestruturações)

    Com efeito, as normas técnicas são inteiramente acessíveis ao indivíduo sem que ele deva recorrer a uma normatividade social. O objeto técnico é válido ou não válido segundo seus caráteres internos que traduzem o esquematismo inerente ao esforço pelo qual ele foi constituído. Uma normatividade intrínseca dos atos do sujeito, que exige sua coerência interna, define-se a partir da operação técnica inventiva. Essas normas jamais bastam para produzir a invenção, mas sua imanência ao sujeito condiciona a validez de seu esforço. A única maneira do técnico agir é livremente, pois a normatividade técnica é intrínseca relativamente ao gesto que a constitui; ela não é exterior à ação ou anterior a ela; mas tampouco a ação é anômica, pois ela só é fecunda se for coerente, e essa coerência é sua normatividade. Ela é válida enquanto existe verdadeiramente em si mesma, e não na comunidade. A adoção ou a recusa de um objeto técnico por uma sociedade nada significa a favor ou contra a validez desse objeto; a normatividade técnica é intrínseca e absoluta; pode-se até notar que é pela técnica que a penetração de uma nova normatividade, numa comunidade fechada, é possibilitada. A normatividade técnica modifica o código dos valores de uma sociedade fechada, porque existe uma sistemática dos valores, e toda sociedade fechada que, admitindo uma nova técnica, introduz os valores inerentes a essa técnica está, por isso mesmo, operando uma nova estruturação de seu código dos valores. Como não há comunidade que não utilize técnica alguma ou que jamais introduza técnicas novas, não existe comunidade totalmente fechada e inevolutiva. (Simondon 2020:521)

    GRUPO SOCIAL = COMUNIDADE (código de obrigações sociais extrinsecas, trabalho) + SOCIEDADE (uma interioridade, valor intrínseco)

    Todo grupo social é um misto de comunidade e de sociedade, definindo enquanto comunidade um código de obrigações extrínsecas relativamente aos indivíduos e, enquanto sociedade, uma interioridade relativamente aos indivíduos. O esforço comunitário e o esforço técnico são antagonistas numa sociedade determinada; as forças comunitárias tendem a incorporar as técnicas num sistema de obrigações sociais, assimilando o esforço técnico a um trabalho; mas o esforço técnico obriga a comunidade a sempre retificar sua estrutura para incorporar criações sempre novas, e ele submete a julgamento, segundo seus próprios valores, a estrutura da comunidade, analisando seus caráteres dinâmicos que essa estrutura predetermina. (Simondon 2020:520-1)

    REALIDADE COLETIVA = COMUNITÁRIA (social como obrigação) + SOCIAL (indivíduo puro, técnicas em sua gênese)

    O tecnicismo positivista é um exemplo muito nítido da maneira pela qual semelhante pensamento introduz valores novos na comunidade. Uma sociologia que, acreditando apreender a realidade humana em sua especificidade, elimina a consideração do indivíduo puro e, consequentemente, das técnicas em sua gênese, define o social pela obrigação, mas deixa de lado uma parte importante da realidade social, parte que pode devir preponderante em certos casos. A realidade coletiva é indissociavelmente comunitária e social, mas esses dois caráteres são antagonistas, e a sociologia monista não pode dar conta desse antagonismo. (Simondon 2020:521-2)

    RELAÇÃO TRANSINDIVIDUAL = SOCIEDADE DOS INDIVÍDUOS (de indivíduo a indivíduo, relação imediata, existência social, dinamismo) SEM TOTALIZAÇÃO (integração comunitária, mitologia coletiva) = HUMANISMO:

    há na invenção algo que está para além da comunidade e institui uma relação transindividual, indo de indivíduo a indivíduo sem passar pela integração comunitária garantida por uma mitologia coletiva. A relação imediata entre os indivíduos define uma existência social no sentido próprio do termo, enquanto a relação comunitária não faz os indivíduos se comunicarem diretamente uns com os outros, mas constitui uma totalidade pelo intermédio da qual eles se comunicam indiretamente e sem consciência precisa de sua individualidade. Uma teoria da comunidade deixa escapar o dinamismo da sociedade dos indivíduos; a sociologia, para ser completa, deve integrar um estudo das técnicas. O humanismo deve igualmente, como o humanismo dos Sofistas, integrar um estudo das técnicas. (Simondon 2020:522)

    A OBRA DO INDIVÍDUO IRRADIA COMO TÉCNICA OU COMO VALORES

    há uma irradiação dos valores em torno de uma conduta, e uma conduta não está isolada na soma das ações do indivíduo, tampouco um indivíduo está isolado no meio social em que existe; é da natureza mesma do indivíduo comunicar, fazer irradiar em torno de si a informação que propaga o que ele cria; é isso que é possibilitado pela invenção técnica, que é ilimitada no espaço e no tempo; ela se propaga sem enfraquecer-se, mesmo quando se associa a um outro elemento, ou se integra a um todo mais complexo; a obra do indivíduo, com efeito, pode se propagar de duas maneiras para além do próprio indivíduo: como obra técnica propriamente dita ou como consequência dessa obra sob a forma de uma modificação das condições coletivas de existência, que implicam exigências e valores. (Simondon 2020:523)

    CRIAÇÃO DA FUNÇÃO (invenção individual) => INSERÇÃO NA COMUNIDADE

    Assim, a invenção de um meio […] rápido de comunicação não é aniquilada pela descoberta de um meio […] mais rápido; mesmo que os procedimentos técnicos sejam totalmente transformados, subsiste uma continuidade dinâmica que consiste em que a introdução na comunidade do primeiro modo de transporte desenvolveu uma exigência de rapidez que serve para promover com força o segundo modo: o primeiro criou a função e a inseriu no conjunto dos dinamismos da comunidade. (Simondon 2020:523)

    CRIAÇÃO DA FUNÇÃO (que torna possível outros dispositivos) => CIVILIZAÇÃO

    Em certa medida, todo dispositivo técnico modifica a comunidade e institui uma função que torna possível o advento de outros dispositivos técnicos; ele se insere, portanto, numa continuidade que não exclui a mudança, mas a estimula, porque as exigências estão sempre à frente das realizações. Por isso, o ser técnico se converte em civilização; (Simondon 2020:523)

    A SOCIEDADE DOS INDIVÍDUOS CRIADORES DE SERES TÉCNICOS (germes de pensamento abrigando normatividade)

    um ser técnico, mesmo pouco integrado na comunidade, vale como objeto a ser compreendido; ele exige um tipo de percepção e de conceitualização que visa a compreender o ser técnico recriando-o; o ser técnico existe, portanto, como um germe de pensamento, abrigando uma normatividade que se estende bem além de si mesmo. O ser técnico constitui então, nessa segunda maneira, uma via que transmite de indivíduo a indivíduo uma certa capacidade de criação, como se existisse um dinamismo comum a todas as buscas e uma sociedade dos indivíduos criadores de seres técnicos. (Simondon 2020:523)

    CIVILIZAÇÃO-PROGRESSO = COMPATIBILIDADE-SINERGIA ENTRE COMUNIDADE e SOCIEDADE

    A civilização é, então, o conjunto dos dinamismos da comunidade e dos dinamismos das diferentes sociedades que encontram no mundo dos seres técnicos uma condição de compatibilidade. Mesmo que a noção de progresso não possa ser aceita diretamente e deva ser elaborada por um trabalho reflexivo, certamente é essa compatibilidade da comunidade e das sociedades que encontra um sentido na noção de desenvolvimento progressivo. O progresso é o caráter do desenvolvimento que integra num todo o sentido das sucessivas descobertas descontínuas e da unidade estável de uma comunidade. É pelo intermédio do progresso técnico que comunidade e sociedade podem ser sinérgicas. (Simondon 2020:523-4)

    O SER TÉCNICO (realidade em expansão, dupla solidariedade, ressonância interna, microcosmo) é O CORRELATIVO DA AUTOCRIAÇÃO DO INDIVÍDUO (transindividual, liberdade)

    Enfim, a consistência própria do ser técnico se constitui como uma realidade em expansão na continuidade temporal do universo técnico, onde uma dupla solidariedade, simultânea e sucessiva, liga os seres técnicos uns aos outros por um condicionamento mútuo; poder-se-ia falar de uma ressonância interna do universo técnico, na qual cada ser técnico intervém efetivamente como condição de existência real dos outros seres técnicos; assim, cada ser técnico é como um microcosmo que abriga, em suas condições de existência monádica, um número enorme de outros seres técnicos válidos; uma causalidade circular cria uma reciprocidade das condições de existência que dá ao universo técnico sua consistência e sua unidade; essa unidade atual prolonga-se por uma unidade sucessiva que torna a humanidade comparável a este homem de que fala Pascal, que sempre aprenderia sem jamais esquecer. O valor do diálogo do indivíduo com o objeto técnico é, então, o de conservar o esforço humano e de criar um domínio do transindividual distinto da comunidade, no qual a noção de liberdade ganha um sentido, e que transforma a noção de destino individual, mas não a aniquila. O caráter fundamental do ser técnico é integrar o tempo a uma existência concreta e consistente; nisso ele é o correlativo da autocriação do indivíduo. (Simondon 2020:524)

    OBJETO ESTÉTICO (precário) como PRECURSOR DO OBJETO TÉCNICO como GERME DE CIVILIZAÇÃO

    Sem dúvida, esse aspecto do objeto técnico não era totalmente desconhecido; uma forma particular do objeto técnico como germe de civilização foi reconhecida e reverenciada há muito tempo: o objeto estético artificial, ou ainda objeto de arte. […] No entanto, o estatuto de existência do objeto estético é precário ele se reinsere na vida da comunidade de maneira oblíqua, e só é aceito se corresponde a um dos dinamismos vitais já existentes. (Simondon 2020:524-5)

    OBJETO SURREAL (estável, auto-organizado como um autômato, independente, indiferente, consistente e voltado a si mesmo)

    O surrealismo foi a última tentativa para salvar a arte pura; esse esforço tem um nobilíssimo sentido; não nos compete dizer se o surrealismo foi paralisado por seu próprio esforço e, apesar dele, terminou num esteticismo; mas gostaríamos de notar que as vias liberadoras do surrealismo conduzem à construção de um objeto estável, auto-organizado como um autômato, independente de seu criador e indiferente àquele que o encontra. O surrealismo está na maneira, hiperfuncional por assim dizer, de construir o objeto; esse objeto não é útil nem agradável; ele é consistente e voltado a si mesmo, absurdo por não ser submetido à obrigação de significar numa outra realidade que não a sua. (Simondon 2020:525)

    OBJETO TÉCNICO é SURREAL quando APREENDIDO PELO INDIVÍDUO PURO

    Ele é dotado de ressonância interna, sensível até na forma poética ou na pintura. O objeto surrealista é uma máquina absoluta. Nenhuma função, nem mesmo a d[o] […] [encanto], lhe é essencial. Para que o acaso o produza, é preciso um encontro que quebre a finalidade natural de um conjunto e faça aparecer um ser destacado de sua função e, consequentemente, absoluto, “insólito”. O objeto surrealista tende para um surreal positivo, e uma das vias desse surreal é a do ser técnico, insólito pelo fato de que ele é novo e está para além do útil. O ser técnico reproduzido e divulgado pela indústria perde seu valor surreal na medida em que a anestesia do uso cotidiano retira a percepção dos caráteres singulares do objeto. Visto como utensílio, o ser técnico não tem mais sentido para o indivíduo. A comunidade se apropria dele, normaliza-o e lhe dá um valor de uso que é estranho à sua essência dinâmica própria. Mas todo objeto técnico pode ser reencontrado pelo indivíduo cujo “gosto técnico” e cuja “cultura técnica” são suficientemente desenvolvidos. Assim, o objeto técnico é um surreal, mas ele só pode ser sentido como tal caso seja apreendido pelo indivíduo puro, por um homem capaz de ser criador, e não por um utilizador que trata o objeto técnico enquanto mercenário ou escravo. (Simondon 2020:525-6)

3 – A individuação dos produtos do esforço humano

[526]: O objeto-indivíduo técnico é o análogo do indivíduo-sujeito humano, mas difere dele pois é autômato e só recebe informações compatíveis com sua estrutura, enquanto o ser humano recebe informações incompatíveis que exigem reestruturação. Civilização depende de automatismo comunitário e dinamismos sociais.

    ANALOGIA HUMANO-TÉCNICA

    Ora, se o nexo do objeto ao homem apresenta, nesse caso, os caráteres de uma relação, deve-se encontrar no objeto técnico uma estrutura e um dinamismo humano analógicos. (Simondon 2020:526)

    OBJETO TÉCNICO (análogo ao organismo individual; escravo como modelo) NÃO É FERRAMENTA (extensão de um órgão)

    a ferramenta, como Piaget notavelmente mostrou a partir de considerações arqueológicas e etnográficas, é destituída de individualidade própria porque ela é enxertada sobre um membro de um outro organismo individualizado que ela tem por função prolongar, reforçar, proteger, mas não substituir. Uma luneta de aproximação não é um ser técnico dotado de individualidade própria, porque ela supõe o olho e só tem sentido dinâmico em frente a um olho: seu dinamismo está inacabado; ela é feita para ser manipulada e regulada pelo indivíduo que vê ou pelo fotógrafo, que são homens. Uma pinça é o prolongamento delicado e duro das unhas humanas ou das mãos humanas. Um martelo é um punho insensível e endurecido. A evolução das formas do martelo de porta mostra que no início ele era concebido como uma mão segurando uma bola de bronze, o pulso sendo substituído por um pivô fixado à porta. Em sua origem, a chave grega era um braço adelgaçado, terminado por um gancho, que se introduzia numa fenda estreita da porta, pela qual se podia pegar o fecho interior. […] Inversamente, os motores, ao invés de serem prolongamentos do indivíduo humano, são seres que aportam do exterior uma energia disponível segundo a necessidade do indivíduo; eles são dotados de exterioridade relativamente à estrutura e à dinâmica do indivíduo. Por isso aparecem desde a origem como que dotados de individualidade; o escravo é o primeiro modelo de qualquer motor; ele é um ser que abriga em si mesmo sua completa organização, sua autonomia orgânica, mesmo quando sua ação é submetida a uma dominação acidental; o animal domesticado também é um organismo. […] A revolta dos animais e dos escravos, apesar dos golpes e da forca patibular, mostra que os motores orgânicos têm uma autonomia, uma natureza que ao menos pode manifestar sua autonomia pelo furor destrutivo, para além de toda estimativa dos perigos ou das chances. Apesar da célebre definição, um escravo jamais é completamente uma ferramenta que fala: a ferramenta não tem individualidade. (Simondon 2020:526-7)

    FERRAMENTA (extensão do órgão) < SER TÉCNICO (análogo funcional do indivíduo) < ESCRAVO (organismo individual vivo)

    Ora, o ser técnico é mais que ferramenta e menos que escravo; ele possui uma autonomia, mas uma autonomia relativa, limitada, sem verdadeira exterioridade relativamente ao homem que o constrói. O ser técnico não tem natureza; ele pode ser um análogo funcional do indivíduo, mas jamais um verdadeiro indivíduo orgânico. (Simondon 2020:528)

    MÁQUINA (não se revolta, apenas se desregula-enlouquece) NÃO É EXTERIOR AO HUMANO (pode enlouquecer, mas também se revoltar) POIS NÃO TEM INTERIORIDADE PRÓPRIA

    Suponhamos que uma máquina seja dotada, por seus construtores, dos mais perfeitos mecanismos teleológicos, e que ela seja capaz de efetuar os mais perfeitos trabalhos, os mais rápidos; essa máquina, funcionalmente equivalente a milhares de homens, não será, no entanto, um verdadeiro indivíduo; a melhor máquina de calcular não tem o mesmo grau de realidade que um escravo ignorante, porque o escravo pode revoltar-se, e a máquina não; a máquina, relativamente ao homem, não pode ter verdadeira exterioridade, pois não tem, em si mesma, verdadeira interioridade. A máquina pode desregrar-se e então apresentar as características de funcionamento análogas à conduta louca num ser vivo. Mas ela não pode se revoltar. A revolta implica, com efeito, uma profunda transformação das condutas finalizadas, e não um desregramento da conduta. (Simondon 2020:528)

    A MÁQUINA SE ADAPTA (é adestrada, mecanismo teleológico, determinismo convergente), O HUMANO SE CONVERTE (aprende, muda seus fins, determinismo divergente)

    A máquina é suscetível de condutas autoadaptativas; porém, entre uma conduta autoadaptativa e uma conversão, subsiste uma diferença que nenhuma semelhança exterior pode mascarar: o homem é capaz de conversão, no sentido em que ele pode mudar de fins no curso de sua existência; a individualidade está para além do mecanismo teleológico, já que ela pode modificar a orientação dessa finalidade. Ao contrário, a máquina é tanto mais perfeita quanto mais o seu automatismo lhe permite, segundo sua finalidade predeterminada, regular-se a si mesma. Mas a máquina não é autocriadora. Mesmo supondo-se que, em curso de funcionamento, a máquina regula seus próprios mecanismos teleológicos, apenas obtém-se uma máquina que, por meio dessa teleologia agindo sobre uma teleologia, é capaz de integrar, a título de dados, os resultados das etapas precedentes do funcionamento; é uma máquina que reduz mais e mais a margem de indeterminação de seu funcionamento segundo os dados do meio, e conforme um determinismo convergente. Essa máquina, consequentemente, se adapta. Mas a adaptação é possível segundo dois processos opostos: aquele que acabamos de evocar é o adestramento, que chega a uma conduta cada vez mais estereotipada e a uma ligação cada vez mais estreita com um meio determinado. A segunda forma de adaptação é a aprendizagem, que, ao contrário, aumenta a disponibilidade do ser relativamente aos diferentes meios nos quais ele se encontra, desenvolvendo a riqueza do sistema de símbolos e de dinamismos que integram a experiência passada segundo um determinismo divergente. Neste segundo caso, aumenta a quantidade de informação que caracteriza a estrutura e a reserva de esquemas contidos no ser; os sucessivos saltos bruscos, que podem ser nomeados de conversões, marcam os momentos em que, tendo a quantidade de informações não integradas devindo muito grande, o ser unifica-se mudando de estrutura interna para adotar uma nova estrutura que integra a informação acumulada. (Simondon 2020:528-9)

    MÁQUINA-AUTÔMATO (estrutura determina informação incidente) =/= INDIVÍDUO-HUMANO (informação pode exigir reestruturação)

    Esse caráter de descontinuidade, essa existência de limiares, não se manifesta no autômato, porque o autômato não muda de estrutura; ele não incorpora à sua estrutura a informação que adquire; jamais há incompatibilidade entre a estrutura que ele possui e a informação que ele adquire, porque sua estrutura determina de antemão qual tipo de informação ele pode adquirir; então, jamais há para o autômato um verdadeiro problema de integração, mas somente uma questão de colocar em reserva uma informação por definição integrável, já que ela é homogênea relativamente à estrutura da máquina que a adquiriu. O indivíduo, ao contrário, possui uma faculdade aberta de adquirir informação, mesmo que essa informação não seja homogênea relativamente à sua estrutura atual; no indivíduo, portanto, subsiste certa margem entre a estrutura atual e as informações adquiridas que, sendo heterogêneas relativamente à estrutura, necessitam de refundições sucessivas do ser, e o poder de questionar a si mesmo. Essa capacidade de ser si mesmo um dos termos do problema que se tem de resolver não existe para a máquina. (Simondon 2020:529)

    OS PROBLEMAS DA MÁQUINA TÊM TERMOS HOMOGÊNEOS (objetos); OS PROBLEMAS DO HUMANO TÊM TERMOS HETEROGÊNEOS (sujeito e objeto)

    A máquina tem questões a resolver, não problemas, pois os termos da dificuldade que a máquina tem de resolver são homogêneos; ao contrário, o indivíduo tem de resolver uma dificuldade que não está expressa em termos de informação homogênea, mas que compreende um termo objeto e um termo sujeito. É por essa razão que o mecanismo teleológico dos seres técnicos é universalmente constituído por uma causalidade circular: o sinal da diferença entre o escopo perseguido e o resultado efetivamente atingido é reportado aos órgãos de comando da máquina de maneira a comandar um funcionamento que diminui a distância que causou o sinal. Essa causalidade reativa adapta a máquina; mas, no caso do indivíduo, o sinal não é aquele de uma distância entre um resultado efetivo e um resultado visado: é aquele de uma dissimetria entre duas finalidades, uma realizada sob forma de estrutura, outra imanente a um conjunto de informações ainda enigmáticas e, no entanto, valorizadas. (Simondon 2020:529-30)

    SISTEMA VIRTUAL ESTRUTURAxINFORMAÇÃO NO INDIVÍDUO (autocriação descontínua)

    A clareza e a compatibilidade só aparecem no sistema virtual se o problema for resolvido graças a uma mudança de estrutura do sujeito individual, segundo uma ação que cria uma verdadeira relação entre o indivíduo anteriormente estruturado e sua nova carga de informação. A noção de adaptação permanece insuficiente para dar conta da realidade do indivíduo; trata-se, de fato, de uma autocriação por saltos bruscos que reformam a estrutura do indivíduo. (Simondon 2020:530)

    O INDIVÍDUO como SER DINAMICAMENTE ILIMITADO (se transmuta em função de informação incidente valorizada e incompatível com sua estrutura atual)

    O indivíduo não encontra em seu meio apenas elementos de exterioridade aos quais deve adaptar-se como uma máquina automática; ele encontra também uma informação valorizada que questiona a orientação de seus próprios mecanismos teleológicos; ele a integra por transmutação de si mesmo, o que o define como ser dinamicamente ilimitado. (Simondon 2020:530)

    AUTÔMATO-MÁQUINA (soluções por adequação meios-fins; dinamismo convergente; cálculo; axiomática fixa durante toda a operação; contínuo) =/= INDIVÍDUO-HUMANO (soluções por ultrapassamento; dinamismo divergente; operação reage sobre a axiomática; descontínuo)

    A problemática individual está para além do nexo entre o ser e seu meio; essa problemática, com efeito, exige soluções por ultrapassamento, e não por redução de uma distância entre um resultado e um escopo. A problemática individual só pode se resolver por construções, aumento de informação segundo um determinismo divergente, e não por um cálculo. Todas as máquinas são como máquinas de calcular. Sua axiomática é fixa durante toda a duração de uma operação, e o cumprimento da operação não reage sobre a axiomática. Ao contrário, o indivíduo é um ser no qual o cumprimento da operação reage sobre a axiomática, por crises intensas que são uma refund[a]ção do ser. A continuidade do funcionamento da máquina opõe-se à continuidade entrecortada de descontinuidades que caracteriza a vida do indivíduo. […] Por essa razão, a reflexão deve recusar a identificação entre o autômato e o indivíduo. (Simondon 2020:530)

    AUTÔMATO-MÁQUINA (equivalente funcional da vida-homeostase-comunitário) x INDIVÍDUO-HUMANO (capaz de questionar a si mesmo, sociedade-transindividual como agrupamento sinérgico de indivíduos); CIVILIZAÇÃO = COMUNIDADE (automatismo) + SOCIEDADE (dinamismo)

    O autômato pode ser o equivalente funcional da vida, pois a vida comporta funções de automatismo, de autorregulação, de homeostasia, mas o autômato não é jamais o equivalente funcional do indivíduo. O autômato é comunitário, e não individualizado como um ser vivo capaz de questionar a si mesmo. Uma comunidade pura se conduziria como um autômato; ela elabora um código de valores destinados a impedir as mudanças de estrutura e a evitar a colocação de problemas. As sociedades, ao contrário, que são agrupamentos sinérgicos de indivíduos, têm por sentido procurar resolver problemas. Elas questionam sua própria existência, enquanto as comunidades procuram perseverar em seu ser. Norbert Wiener analisou a maneira pela qual os poderes de rigidez de uma comunidade asseguram sua homeostasia. A comunidade tende a automatizar os indivíduos que a compõem, dando-lhes uma significação funcional pura. Aí, então, a capacidade que possui o indivíduo de se questionar é perigosa para a estabilidade da comunidade; nada garante, com efeito, o sincronismo das transformações individuais, e a relação interindividual pode ser rompida por uma iniciativa individual pura.·Outrossim, como um coeficiente formal superior que condiciona o valor funcional de um indivíduo na comunidade, a estabilidade afetiva devém o critério fundamental que permite a permanente integração do indivíduo ao grupo; essa garantia de continuidade é também uma garantia de automatismo social. Essa estabilidade é o correlativo da capacidade de adaptação a uma comunidade. Ora, essas qualidades de adaptação direta por assimilação e de estabilidade emocional definem o autômato perfeito. Toda civilização tem necessidade de uma certa taxa de automatismo para garantir sua estabilidade e sua coesão. Ela também necessita do dinamismo das sociedades, as únicas capazes de uma adaptação construtiva e criativa, para não se fechar sobre si mesma numa adaptação estereotipada, hipertélica e inevolutiva. Ora, o ser humano é um autômato assaz perigoso, que sempre corre o risco de inventar e de se dar novas estruturas. A máquina é um autômato superior ao indivíduo humano enquanto autômato, porque ela é mais precisa em seus mecanismos teleológicos, e mais estável em suas características. (Simondon 2020:530-1)

4 – A atitude individuante na relação do homem ao ser técnico inventado

[532]: Quando existe cultura técnica, a máquina (como gênese) é mediadora da relação entre o humano-sujeito e o mundo-objeto, e assim é fonte de sociedade-transindividual e valores absolutos. Sem cultura técnica, a máquina (como dado) é mediadora da relação do humano-indivíduo com seu grupo-comunidade, e assim sujeita esse humano-indivíduo aos valores relativos de sua comunidade enquanto ele a serve (servidão maquínica).

    VALORES (indivíduo-ser técnico)

    Pode-se então perguntar quais valores estão engajados na relação do indivíduo ao ser técnico. (Simondon 2020:532)

    A IDENTIFICAÇÃO OU SIMETRIZAÇÃO ENTRE INDIVÍDUO HUMANO E SER TÉCNICO É NOCIVA. POIS LEVA À ESCRAVIZAÇÃO DA MÁQUINA PELO HUMANO (comunitário), OU À SUJEIÇÃO SOCIAL DO HUMANO FRENTE À COMUNIDADE POR MEIO DA MÁQUINA (servidão maquínica, normal como norma e exclusão da informação atípica)

    Gostaríamos de mostrar que toda tentativa para constituir uma relação simétrica entre o homem e o ser técnico é destrutiva tanto para os valores do indivíduo quanto para os do ser técnico. Pode-se tentar, com efeito, identificar a máquina ao indivíduo, ou o indivíduo à máquina, de maneira igualmente destrutiva. No primeiro caso, a máquina devém uma propriedade do homem, que se vangloria de sua criatura e só a produz para submetê-la a necessidades ou a usos de cada indivíduo, satisfeito com seus servidores mecânicos até mesmo em suas fantasias mais singulares: o gosto pelo maquinismo na vida cotidiana às vezes corresponde a um desejo desregrado de comandar dominando. O homem se conduz por entre as máquinas como um mestre por entre os escravos, por vezes desejando saborear em sua desmesura o espetáculo de sua destruição dramática e violenta. Esse singular despotismo de civilizado manifesta uma identificação possível do homem com seres mecânicos. Os jogos de circo reencontram-se nas competições de máquinas, e os combates de gladiadores, nos enfrentamentos de stockcars. O cinema gosta de mostrar terríveis destruições de seres mecânicos. A visão das máquinas pode ganhar um feitio épico; o homem reencontra nisso uma certa primitividade. No entanto, precisamente essa atitude de superioridade do homem para com a máquina corresponde sobretudo aos lazeres, à folga do homem que a comunidade não mais constrange, e que encontra uma compensação no despotismo fácil sobre os objetos mecânicos submetidos. […] A atitude inversa e complementar é a do homem em sua função comunitária: aí ele serve a máquina, e ele se integra a esta máquina mais vasta que é a comunidade, servindo sua máquina particular segundo os valores fundamentais do código do automatismo (por exemplo, a rapidez das respostas aos sinais). Por vezes, a própria máquina porta, ela mesma, os registradores que permitirão à comunidade julgar a conduta do homem no trabalho (caixa-preta). A relação do ser individual à comunidade, numa civilização fortemente industrializada, passa pela máquina. Aqui a máquina assimila o homem a si, definindo as normas comunitárias. Ademais, uma normatividade suplementar é oriunda da máquina quando esta última é utilizada para a classificação dos indivíduos conforme suas performances ou suas aptidões; sem dúvida, jamais é a máquina que julga, pois ela é puro autômato e só é utilizada para calcular. Entretanto, para poder utilizar a máquina, é preciso que os homens, em seu nexo à máquina, exprimam-se segundo sistemas de informação que são facilmente traduzíveis, com a codificação da máquina, num conjunto de sinais que têm um sentido para a máquina (isto é, que correspondem a um funcionamento determinado). Essa necessidade para a ação humana de ser traduzível em linguagem de automatismo chega a uma valorização da estereotipia das condutas. Enfim, a própria quantidade de informação, numa relação de indivíduo a indivíduo, devém um obstáculo à transmissão dessa informação por uma via que utiliza o automatismo. Por exemplo, uma civilização que adapta seus meios […] de comunicação a uma transmissão automática das mensagens é conduzida a substituir a expressão direta e particular dos sentimentos nas circunstâncias comunitárias já submetidas a usos por fórmulas mais perfeitamente estereotipadas, inscritas em pequeno número sobre um borderô no gabinete de partida e impressas sobre fórmulas já prontas no gabinete de chegada; basta então transmitir o endereço do destinatário, o número da fórmula e o nome do remetente. Aqui, o indivíduo atípico é paralisado em sua escolha, pois nenhuma fórmula prevista responde exatamente ao que ele teria querido exprimir. O atípico que causa um grande dispêndio de informação à comunidade é um ser deficitário a partir do momento em que a informação é transmitida indiretamente de indivíduo a indivíduo pelo intermédio de um dispositivo que utiliza o automatismo; uma voz muito grave, muito aguda ou rica em harmônicos, é mais deformada pela transmissão telefônica ou pelo registro que uma voz cujas frequências médias se situam nas bandas telefônicas e que não põem na aparelhagem nenhum problema difícil relativo à transmodulação. A normalidade devém uma norma, e o caráter médio, uma superioridade, numa comunidade onde os valores têm um sentido estatístico. […] Ora, essas duas atitudes inversas de estereotipia e de fantasia, de despotismo privado e de subserviência comunitária relativamente ao objeto técnico vêm do fato de que a relação entre o homem e a máquina não é realmente dissimétrica. Ela é uma dupla assimilação, não uma relação analógica construtiva. (Simondon 2020:532-4)

    RELAÇÃO NOBRE ENTRE HUMANO e MÁQUINA é DUPLAMENTE GENÉTICA (a máquina completa o humano o libertando da comunidade e o humano completa a máquina inserindo-a numa rede de sentido e valor)

    Consideremos, ao contrário, a relação nobre entre o homem e a máquina: ela visa a não degradar nem um nem outro dos dois termos. Sua essência reside no fato de que essa relação tem valor de ser: ela tem uma função duplamente genética, para com o homem e para com a máquina, enquanto, nos dois casos precedentes, a máquina e o homem já estavam inteiramente constituídos e definidos no momento em que se encontravam. Na verdadeira relação complementar, é preciso que o homem seja um ser inacabado que a máquina completa, e a máquina um ser que encontra no homem sua unidade, sua finalidade e sua ligação ao conjunto do mundo técnico; homem e máquina são mutuamente mediadores, porque a máquina possui em seus caráteres a integração à espacialidade e a capacidade de salvaguardar informação através do tempo, enquanto o homem, por suas faculdades de conhecimento e seu poder de ação, sabe integrar a máquina a um universo de símbolos que não é espaçotemporal, e no qual a máquina jamais poderia ser integrada por si mesma. Entre esses dois seres assimétricos se estabelece uma relação graças à qual uma dupla participação é realizada; há um quiasma entre dois universos que permaneceriam separados; poder-se-ia notar que a máquina é oriunda do esforço humano e que ela consequentemente faz parte do mundo humano; mas, de fato, ela incorpora uma natureza, é feita de matéria e se encontra diretamente inserida no determinismo espaçotemporal; mesmo oriunda do trabalho humano, ela conserva, quanto ao seu construtor, uma relativa independência; ela pode passar a outras mãos, pode devir a cadeia de uma série que seu inventor ou seu construtor não haviam previsto. Além do mais, uma máquina só ganha seu sentido num conjunto de seres técnicos coordenados, e essa coordenação só pode ser pensada e construída pelo homem, pois não está dada na natureza. (Simondon 2020:534)

    O HUMANO INTEGRA A MÁQUINA NUM TODO, E ESTA MODIFICA ESSE TODO (estabilizando-o e/ou transformando-o); mas PARA ISSO É NECESSÁRIO CULTURA TÉCNICA

    O homem confere à máquina a integração ao mundo construído, no qual ela encontra sua definição funcional por sua relação às outras máquinas; mas é a máquina, e cada máquina em particular, que confere sua estabilidade e sua realidade a esse mundo construído; ela traz do mundo natural a condição de materialidade, de espaçotemporalidade, sem a qual o mundo não teria qualquer espessura ou consistência. Para que essa relação possa existir entre o homem e a máquina, é preciso uma dupla condição no homem e na máquina. No homem, é preciso uma cultura técnica, feita do conhecimento intuitivo e discursivo, indutivo e dedutivo, dos dispositivos que constituem a máquina, implicando a consciência dos esquemas e das qualidades técnicas que estão materializadas na máquina. O homem deve conhecer a máquina segundo um conhecimento adequado, em seus princípios, seus detalhes e sua história; então, ela não mais será para ele um simples instrumento ou um criado que jamais protesta. Toda máquina cristaliza certo número de esforços, intenções, esquemas, e investe tal ou qual aspecto da natureza dos elementos químicos. Seus caráteres são mistos de esquemas técnicos e de propriedades dos elementos constituintes da matéria, e das leis de transformação da energia. A verdadeira cultura técnica exige um saber científico; ela conduz a não menosprezar nenhum ser técnico, mesmo antigo; sob caráteres exteriores fora de moda ou vetustos, ela reencontra o sentido de uma lei científica e a propriedade de um elemento material; o ser técnico apreende em sua realidade definida uma certa mediação entre o homem e o mundo natural; é essa mediação que a cultura técnica permite apreender em sua autêntica realidade. (Simondon 2020:534-5)

    GOSTO TÉCNICO (estético), DELICADEZA MORAL, TECNOLOGIA CULTURAL e RESPEITO PELO SER TÉCNICO

    Pode-se desenvolver um gosto técnico, comparável ao gosto estético e à delicadeza moral. Muitos homens, por falta de cultura, conduzem-se de maneira primitiva e grosseira em sua relação às máquinas. A estabilidade de uma civilização que comporta um número cada vez maior de seres técnicos não poderá ser atingida enquanto a relação entre o homem e a máquina não for equilibrada e marcada de sabedoria, segundo uma medida interior que somente uma tecnologia cultural poderá dar. O frenesi de possessão e a desmesura de utilização das máquinas são comparáveis a um verdadeiro desregramento dos costumes. As máquinas são tratadas como bens de consumo por uma humanidade ignorante e grosseira, que se lança com avidez sobre tudo que apresenta um caráter de novidade exterior e artificial, para repudiá-lo tão logo o uso tenha esgotado as qualidades de novidade. O homem cultivado deve ter um certo respeito pelo ser técnico, precisamente porque ele conhece sua verdadeira estrutura e seu funcionamento real. (Simondon 2020:535-6)

    ALIENAÇÃO TÉCNICA (hipnose) OCULTA O SER TÉCNICO SOB VALORES COMUNITÁRIOS (status e prestígio)

    À delicadeza cultural do homem devem corresponder a verdade e a autenticidade da máquina. Ora, enquanto o gosto humano está corrompido, a civilização industrial não pode produzir máquinas verdadeiramente autênticas, porque essa produção está submetida às condições comerciais da venda; ela deve curvar-se, então, às condições da opinião e do gosto coletivo. Ora, se considerarmos as máquinas que nossa civilização libera ao uso do indivíduo, veremos que seus caráteres técnicos estão obliterados e dissimulados por uma retórica impenetrável, recobertos por uma mitologia e uma magia coletivas que custosamente se chega a elucidar ou a desmistificar. As máquinas modernas utilizadas na vida cotidiana são em grande parte instrumentos de adulação. Existe uma sofisticada apresentação que busca dar um feitio mágico ao ser técnico, para adormecer as potências ativas do indivíduo e levá-lo a um estado hipnótico, no qual ele degusta o prazer de comandar uma turba de escravos mecânicos, frequentemente pouco diligentes e fiéis, mas sempre aduladores. Uma análise do caráter “luxuoso” dos objetos técnicos mostraria quanta enganação eles abrigam: sobre um grande número de aparelhos, o fetichismo do quadro de comando dissimula a pobreza dos dispositivos técnicos, e sob uma impressionante carenagem ocultam-se singulares negligências da fabricação. Sacrificada a um gosto depravado, a construção técnica é uma arte de fachada e de prestidigitação. O estado de hipnose estende-se desde a compra até a utilização; na própria propaganda comercial, o ser técnico já está revestido de uma certa significação comunitária: comprar um objeto é adquirir um título para fazer parte desta ou daquela comunidade; é aspirar a um gênero de existência que se caracteriza pela possessão desse objeto; o objeto é cobiçado como um signo de reconhecimento comunitário, um […] (símbolo), no sentido grego do termo. Depois, o estado de hipnose se prolonga na utilização e o objeto jamais é conhecido em sua realidade, mas apenas por aquilo que ele representa. (Simondon 2020:536)

    A MÁQUINA COMO MEDIADOR ENTRE O INDIVÍDUO E O GRUPO (valores relativos) leva à AUTOCRACIA E À SUJEIÇÃO SOCIAL-SERVIDÃO MAQUÍNICA (hipnose, homeostase-automatismo comunitário); A MÁQUINA COMO MEDIADOR ENTRE O INDIVÍDUO-SUJEITO E O MUNDO-OBJETO leva à LIBERTAÇÃO DA COMUNIDADE POR UM CONTATO TECNICAMENTE MEDIADO (ação-informação) COM O MUNDO-OBJETO (valores absolutos)

    A comunidade oferece, assim, ao lado das duras coações que ela impõe ao indivíduo, uma compensação que o impede de se revoltar e de ter uma consciência aguda de seus problemas: o estado de inquietude, sempre latente, é sempre diferido pela hipnose técnica, e a vida do indivíduo se escoa num balanço entre as coações da rigidez social e os estados gratificantes que a comunidade fornece pela encantação técnica. Esse estado é estável, porque a comercialização da indústria encontra uma via mais fácil na ação sobre a opinião coletiva do que na verdadeira pesquisa e nos aperfeiçoamentos técnicos reais, que não teriam valor comercial algum enquanto permanecessem incompreendidos pela maioria, que só é informada pelas vias comerciais. Para romper esse círculo vicioso, não basta dizer que o homem deve comandar a máquina ao invés de se deixar submeter por ela; é preciso compreender que, se a máquina submete o homem, é na medida em que o homem degrada a máquina fazendo dela uma escrava. Se, ao invés de buscar numa máquina estados de hipnose, ou uma fonte fácil de maravilhas para o ignorante, o homem associar a máquina aos estados nos quais ele é verdadeiramente ativo e criador, como é o caso na pesquisa científica, o aspecto comunitário da máquina poderá desaparecer. Se considerarmos as máquinas que são utilizadas na pesquisa científica, veremos que, mesmo quando elas utilizam um automatismo muito complexo, não submetem o homem e tampouco são submetidas por ele; elas não são objeto de consumo e tampouco são seres destinados a produzir um trabalho predeterminado em seus resultados, esperado e exigido pela comunidade que faz pesar sua obrigação sobre o indivíduo. Nessas condições, a máquina está integrada à cadeia causal do esforço humano; o fim desse esforço ultrapassa a máquina que se aciona. A máquina, então, realiza a mediação relativamente ao objeto da pesquisa, e não relativamente à comunidade. Ela se apaga do campo de percepção do indivíduo; ele não aciona a máquina; ele age sobre o objeto e observa o objeto através da máquina. Graças à máquina, institui-se um ciclo que vai do objeto ao sujeito e do sujeito ao objeto: a máquina prolonga e adapta um ao outro, sujeito e objeto, através de um encadeamento complexo de causalidades. Ela é ferramenta, enquanto permite ao sujeito agir sobre o objeto, e instrumento, enquanto aporta ao sujeito sinais vindos do objeto; ela veicula, amplifica, transforma, traduz e conduz num sentido uma ação e, em sentido inverso, uma informação; ela é de uma só vez ferramenta e motor. O caráter recíproco dessa dupla relação faz com que o homem não se aliene na presença dessa máquina; ele permanece homem e ela permanece máquina. Relativamente ao objeto, a posição do homem e a posição da máquina não são simétricas; a máquina tem uma ligação imediata com o objeto, e o homem, uma relação mediata. O objeto e o homem é que são simétricos relativamente à máquina. O homem cria a máquina para que ela institua e desenvolva a relação. É por essa razão que a relação à máquina só é válida se ela atravessa a máquina para ir, não ao homem sob forma comunitária, mas a um objeto. A relação do homem à máquina é assimétrica porque essa máquina institui uma relação simétrica entre o homem e o mundo. (Simondon 2020:537-8)

5 – Caráter alagmático do objeto técnico individuado

[538]: O objeto técnico individuado corresponde à individuação coletiva humana transindividual (humanismo). na medida em que liberta o indivíduo da comunidade mediando sua relação com um mundo-objeto-natureza (e não com a comunidade, moral do rendimento).

    A MÁQUINA COMO MEDIAÇÃO ENTRE SUJEITO-HUMANO E MUNDO-OBJETO

    A identificação da máquina ao homem ou do homem à máquina só pode se produzir se a relação se esgota na ligação do homem com a máquina. Mas se a relação é realmente de três termos, o termo mediador permanece distinto dos termos extremos. É a ausência do termo objeto que cria a possibilidade de dominação do homem sobre a máquina ou da máquina sobre o homem. (Simondon 2020:538)

    O SER TÉCNICO É UM VEÍCULO DA AÇÃO DO HUMANO SOBRE O MUNDO, E DE INFORMAÇÃO SOBRE O MUNDO PARA O HUMANO (não confundir com feedback da Cibernética, que é informação automatizada, misturada com ação)

    O ser técnico só pode ser definido em termos de informação e de transformação das diferentes espécies de energia ou de informação, isto é, por um lado como veículo de uma ação que vai do homem ao universo e, por outro, como veículo de uma informação que vai do universo ao homem. A tecnologia cultural devém um misto de energética e de teoria da informação. A Cibernética, teoria inspirada em grande medida por considerações tiradas do funcionamento das máquinas, seria uma das bases da tecnologia se ela não tivesse privilegiado desde o início um misto de ação e de informação que é o feedback, ou ação em retorno (causalidade recorrente); uma máquina, com efeito, pode existir sem comportar nenhuma relação entre a cadeia de causalidade que veicula a ação e a cadeia de causalidade que veicula a informação; quando comporta tal ligação, ela contém um automatismo; mas existem máquinas que não são autômatos, ou que pelo menos só comportam automatismos para funções secundárias ou temporárias e ocasionais (por exemplo, aquelas que garantem a segurança, o servocomando, ou o telecomando). (Simondon 2020:539)

    ALAGMÁQUINA

    A máquina é um ser alagmático. (Simondon 2020:539)

    INFORMAÇÃO DIRETA (ampla e permanente, informacionalmente rica) =/= INFORMAÇÃO RECORRENTE (feedback, remete à ação do sujeito; é valorizada dicotomicamente como valor relativo, estreita e temporária, instantânea; variável, sempre renovada; simplificação, redução informacional)

    a cibernética, considerando a informação como o sinal da distância entre o resultado da ação e o escopo da ação, no feedback, corre o risco de levar a que se subestime o papel da informação direta, que não está inserida na recorrência do feedback e que não necessita de uma iniciativa ativa do indivíduo para se formar. Essa informação direta, inversamente à informação recorrente, não comporta uma referência à ação do sujeito e, consequentemente, não é valorizada enquanto marca de um sucesso ou de um fracasso. Quando a informação do feedback chega, ela se insere como uma forma nesse fundo de informação não recorrente, tanto que o indivíduo se encontra em presença de duas informações: uma informação ampla e permanente, que o insere no mundo como meio; e uma informação estreita e temporária, até mesmo instantânea, que está eminentemente ligada à ação, variável como ela, e sempre renovada como a ação. Essa informação, que é de tipo recorrente, não comporta tamanha riqueza quanto a precedente, mas, ao contrário, define-se por alguns sinais concretos, porém muito simples (cor, forma, atitude), que, em razão de sua fraca riqueza em informação, podem ser facilmente substituídos, ou rapidamente modificados, sem necessitar de um grande dispêndio de energia nervosa no operador, ou de uma transmissão muito complexa na máquina. (Simondon 2020:539-40)

    EXISTE UMA DIFERENÇA QUANTITATIVA DE INFORMAÇÃO ENTRE A DIRETA E A RECORRENTE (esta última exige muito menos informação, pois indica apenas o resultado-forma da ação do indivíduo relativamente a um referencial-fundo dado)

    A diferença entre esses dois tipos de informação devém extremamente sensível assim que se é obrigado a traduzi-las ambas numa forma única que permita compará-las; a diferença entre os dois papéis se manifesta, então, como uma diferença considerável entre as quantidades de informação. Assim, as indicações que um piloto de avião recebe do altímetro só valem como feedback, permitindo ao piloto regrar sua ação de descida ou subida segundo as indicações da agulha sobre o mostrador; elas se inserem como forma num fundo que é a visão global e sintética da região percorrida, e até mesmo do estado da atmosfera ou do teto de nuvens; esse feedback deve ser tanto mais preciso quanto mais importantes forem as consequências práticas do gesto motor do piloto; por exemplo, o altímetro simples das altas altitudes não pode servir para apreciar a distância do avião relativamente à pista no momento da aterrissagem; emprega-se, então, um dispositivo que emite ondas eletromagnéticas que se refletem no solo e retornam com certo retardo, apreciado graças a uma variação da frequência de emissão com a qual a frequência de onda refletida pode bater: o sinal é constituído por esse batimento. Nesse primeiro caso, seja qual for o sistema técnico empregado, o princípio é sempre o mesmo: apreender uma grandeza variável segundo os resultados da ação do indivíduo e reconduzir ao sujeito o sinal que indica o resultado dessa ação relativamente a um termo de referência fixo e que faz parte do escopo. O sinal, então, pode ser apresentado ao sujeito segundo uma escala intensiva ou extensiva simples, correspondendo a um eixo orientado sobre o qual um ponto ou uma linha figura o escopo, e um outro ponto ou uma outra linha figura o resultado da ação. Essa informação pode ser representada pelo deslocamento de um índice frente a uma graduação. (Simondon 2020:540-1)

    INFORMAÇÃO DIRETA, RELATIVA AO FUNDO (enorme quantidade), É INTEGRADA PELO INDIVÍDUO; INFORMAÇÃO RECORRENTE, RELATIVAMENTE À FIGURA (reduzida a sinais padronizados), É INTEGRADA PELA MÁQUINA; AMBAS PODEM PARTICIPAR DE UMA DUPLA LOCALIZAÇÃO

    Muito pelo contrário, caso se trate de transmitir a informação relativa ao fundo e não à forma, nenhum procedimento de informação suscetível de inscrever-se sobre uma escala linear bipolar pode ter êxito: a simultaneidade de uma multiplicidade é necessária, e o indivíduo é o centro que integra essa multiplicidade. Todos os procedimentos se chocam com a necessidade de decompor a totalidade em elementos simples transmitidos isoladamente, de que esse isolamento da singularidade seja realizado por uma multidão de transmissões simultâneas e independentes (como nos primeiros dispositivos de televisão) ou pela distribuição num ciclo que assegure um sincronismo na saída e na chegada (cada elemento tendo tido seu instante no ciclo), supondo-se a informação invariável durante um ciclo. Como nesse caso não é a máquina que desempenha o papel de integrador, mas sim o sujeito, a necessidade de levar fundos, e não formas, ao sujeito se traduz por uma enorme quantidade de informação a ser transportada. É essa enorme quantidade de informação a ser coletada e transmitida, sem integrá-la, que limita a sutileza da detecção eletromagnética pelo radar, o que confere graves problemas à transmissão de imagens moventes em televisão, obrigando-a a adotar videofrequências muito elevadas e tanto maiores quanto mais elevada é a definição da imagem. A quantidade de informação necessária à transmissão só pode ser diminuída graças a uma codificação do mundo a ser percebido, codificação conhecida do sujeito, o que corresponde a um recurso a uma percepção de formas sobre um fundo que já é conhecido e que não necessita mais ser transmitido. Assim, é possível substituir a observação do terreno e das regiões percorridas de avião por um mapa sobre o qual o piloto faz o ponto mediante relações de fase entre os sinais vindos de três estações de emissão eletromagnética dispostas em triângulo, como no sistema de navegação Decca, Shoran ou, atualmente, pelas rádio-balizas. Aqui, o piloto traz um análogo da região sobrevoada (o mapa), e graças a uma formalização do mundo, conhecido e adotado por convenção (a construção dos três emissores e do dispositivo de sincronização que os liga), o piloto realiza sobre o mapa uma integração muito mais facilitada, porque ele opera sobre elementos já abstratos; há aqui duas integrações concêntricas: uma primeira integração fundamental do mapa do mundo, graças à qual o mapa pode ter uma significação, e uma segunda integração dos sinais recebidos no mapa trazido, que é mais fácil porque a informação já está selecionada pela passagem do mundo concreto ao mapa e dos sinais visuais múltiplos às três ondas hertzianas em nexo de fase. O trabalho se faz aqui sobre uma imagem (o mapa) e sobre símbolos (os sinais provenientes dos emissores sincronizados). Isso é válido graças a uma dupla localização, uma pela qual o mapa é reconhecido como imagem de tal região, pelo piloto, e outra pela qual os pilares dos três emissores sincronizados foram, de fato, construídos em tal local do território geográfico, e não noutro. As fontes dos símbolos estão localizadas na imagem, o que estabelece uma coerência sem a qual a pilotagem não seria possível. (Simondon 2020:541-2)

    MESMO COMO MODELO REDUZIDO, O MUNDO PERMANECE PRESENTE SE HOUVER EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA; A PERDA DA RELAÇÃO COM O MUNDO-OBJETO REDUZ O INDIVÍDUO AO MUNDO-COMUNIDADE (pouca informação, estereotipia)

    A presença do mundo, então, jamais é eliminada pela utilização da máquina; mas a relação ao mundo pode ser fracionada e passar pelo intermédio de vários estágios de simbolização, relação à qual corresponde uma construção técnica que distribui ao longo do mundo demarcações válidas segundo uma percepção pelo intermédio da máquina; essa percepção não é muito mais automática que a percepção direta pelos órgãos sensoriais; mas ela corresponde a uma integração por patamares e é especializada, em certa medida, segundo cada tipo de atividade. Mas o concreto, mesmo fracionado, permanece sendo o concreto; o nexo do fundo e da forma é inalienável. A pura artificialidade conduziria à confusão do fundo e da forma, tanto que o indivíduo se encontraria ante um mundo simplificado onde não mais haveria universo nem objeto. A percepção do indivíduo totalmente integrado na comunidade é, em alguma medida, uma percepção abstrata como essa; ao invés de resgatar o objeto do mundo, ela recorta o mundo segundo categorias que correspondem às classificações da comunidade e estabelece liames de participação afetiva entre os seres segundo essas categorias comunitárias. Somente uma profunda educação tecnológica no nível do indivíduo pode resgatar do confusionismo da percepção comunitária estereotipada. Uma imagem não é um estereótipo. (Simondon 2020:542-3)

    A RELAÇÃO INDIVÍDUO-COMUNIDADE, QUANDO MEDIADA PELA MÁQUINA, INSTITUI UMA MORAL DO RENDIMENTO

    Os valores implicados na relação do indivíduo à máquina deram lugar a muitas confusões, porque o recente desenvolvimento das máquinas e sua utilização pelas comunidades modificou o nexo do indivíduo à comunidade: essa relação, que outrora era direta, agora passa pela máquina, e o maquinismo está ligado em certa medida ao comunitarismo; a noção de trabalho não é mais diretamente um valor comunitário, porque a passagem do esforço humano através de uma organização mecânica afeta o trabalho num coeficiente relativo a esse trabalho: o rendimento; uma moral do rendimento está se constituindo, que será uma moral comunitária de uma nova espécie. O esforço individual não é intrinsecamente válido: também é preciso que uma certa graça extrínseca, que se concretiza na fórmula do rendimento, o torne eficaz. Essa noção tem um certo poder invasivo e se desdobra, largamente, para além das operações comerciais ou mesmo industriais; ela afeta todo sistema educativo, todo esforço e todo trabalho. Certa ressurgência comunitária do pragmatismo confere à ética um novo tipo de heteronomia dissimulada sob a figura de um desejo de racionalidade ou de preocupações concretas. Quando uma ideia ou um ato são rechaçados porque julgados ineficazes e de pouco rendimento, na realidade é porque representam uma iniciativa individual criadora e porque a comunidade se insurge com um permanente instinto misoneísta contra tudo que é singular. O misoneísmo visa ao novo, mas sobretudo naquilo que ele apresenta de singular, logo, de individual. O novo, coletivo, tem direito de cidadania sob a forma da moda; ele até mesmo se encontra eminentemente valorizado pela comunidade. É o novo individual que é perseguido e expulso como privado de rendimento. O critério de rendimento é impressão da subjetividade coletiva e manifesta a graça que a comunidade concede ou recusa à criação individual. Não é porque uma civilização ama o dinheiro que ela se ata ao rendimento, mas é por ser primeiramente civilização do rendimento que ela devém civilização do dinheiro quando certas circunstâncias fazem desse modo de troca o critério concreto do rendimento. (Simondon 2020:543-4)

    HUMANISMO (valor absoluto) PRECISA ASSUMIR QUE AS RELAÇÕES DO INDIVÍDUO-HUMANO COM O SEU MUNDO-OBJETO E SUA COMUNIDADE SÃO DISTINTAS, E QUE AMBAS SÃO TECNICAMENTE MEDIADAS

    Ora, apesar das aparências, uma civilização do rendimento, a despeito das aparentes liberdades cívicas que ela deixa para os indivíduos, é extremamente coercitiva para eles e impede seu desenvolvimento, pois submete simultaneamente o homem e a máquina; através da máquina, ela realiza uma integração comunitária coercitiva. Não é contra a máquina que o homem, sob a dominação de uma preocupação humanista, deve se revoltar; o homem só está submetido à máquina quando a própria máquina já está submetida pela comunidade. E como existe uma coesão interna do mundo dos objetos técnicos, o humanismo deve visar a liberar esse mundo dos objetos técnicos que são chamados para devirem mediadores da relação do homem ao mundo. Até hoje, o humanismo não pôde incorporar muito a relação da humanidade ao mundo; essa vontade que o define, de reduzir ao ser humano tudo o que as diversas vias de alienação lhe arrancaram, descentrando-o, permanecerá impotente enquanto não compreender que a relação do homem ao mundo e do indivíduo à comunidade passa pela máquina. O antigo humanismo permaneceu abstrato porque só definia a posse de si pelo cidadão, e não pelo escravo; o humanismo moderno permanece sendo uma doutrina abstrata quando ela crê salvar o homem de toda alienação lutando contra a máquina “que desumaniza”. Ela luta contra a comunidade acreditando lutar contra a máquina, mas ela não pode chegar a nenhum resultado válido porque acusa a máquina daquilo pelo que esta não é responsável. Desdobrando-se em plena mitologia, essa doutrina se priva do mais forte e mais estável auxiliar, que daria uma dimensão ao humanismo, uma significação e uma abertura que nenhuma crítica negativa jamais lhe oferecerá. Segundo a via de pesquisa que é aqui apresentada, devém possível buscar um sentido dos valores de outro jeito que não na interioridade limitada do ser individual redobrado sobre si mesmo e negando os desejos, tendências ou instintos que o convidam a exprimir-se ou a agir fora dos seus limites, sem por isso se condenar a aniquilar o indivíduo frente à comunidade, como faz a disciplina sociológica. Entre a comunidade e o indivíduo isolado sobre si mesmo, existe a máquina, e essa máquina está aberta sobre o mundo. Ela vai além da realidade comunitária para instituir a relação com a Natureza. (Simondon 2020:544-5)

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